Pesquisadores da USP criam películas para acondicionamento
de alimentos que podem identificar se o produto está estragado ou se
pode ser conservado durante mais tempo nas prateleiras dos
supermercados.
Por:
Fernanda Távora
Com a nova embalagem inteligente, será possível identificar
nas prateleiras dos supermercados se o produto está estragado. (foto:
Sxc.hu)
Saber se um alimento está impróprio para o consumo não
depende apenas da data de validade impressa no pacote. Muitas vezes, o
tempo de prateleira pode ser mais curto do que o esperado, devido a
possíveis fissuras na embalagem que permitam a entrada de
microrganismos. Para evitar qualquer dúvida nesse sentido, pesquisadores
da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram
uma embalagem que muda de cor para indicar o estado de conservação de um
alimento.
Trata-se de uma película, parecida com um filme
plástico de embalagens, feita à base de fécula de mandioca,
matéria-prima orgânica, renovável e biodegradável
Trata-se de uma película, parecida com um filme plástico de
embalagens, feita à base de fécula de mandioca, matéria-prima orgânica,
renovável e biodegradável. Segundo a pesquisadora responsável pelo
estudo, a engenheira de alimentos Carmen Tadini, do Departamento de
Engenharia Química da USP, a escolha deve-se ao fato de a mandioca ser
abundante no país e conter amido, já empregado na fabricação de
películas biodegradáveis em pesquisas anteriores. “No caso do Brasil,
utilizar essa matéria-prima é uma oportunidade de mercado interessante
para os agricultores”, aponta.
A película recebe ainda um pigmento retirado da casca da uva chamado
antocianina, que é responsável pela variação da cor da embalagem quando o
produto está se deteriorando. O pigmento faz a embalagem mudar de
coloração à medida que o pH (grau de acidez) do alimento se altera,
devido à sua decomposição. “Em estado natural, a antocianina está
associada ao processo de amadurecimento de frutas e vegetais de cor roxa
ou avermelhada”, explica Tadini. “Quando amadurecidos, os frutos também
sofrem uma variação no pH e o pigmento entra em ação, alterando a cor.”

-
- A embalagem,
originalmente em tom avermelhado (à direita), muda sua cor para tons de
cinza quando o alimento está se deteriorando. No exemplo acima, o
produto foi testado com um pedaço de peixe cru. (foto: divulgação)
A eficiência da película foi comprovada por meio de testes com peixe
cru em laboratório. “Colocamos os pedaços em potes e depois tampamos os
recipientes com a película, sem colocá-la em contato direto com o
alimento”, conta Tadini. “Conforme o peixe vai se deteriorando, bases
nitrogenadas vão sendo liberadas como resultado da quebra da proteína.
Essas bases são voláteis e são elas que dão o cheiro de peixe estragado.
O ambiente onde o peixe cru está fica com pH básico e o filme muda de
cor, passando do seu vermelho característico para uma cor acinzentada.”
A cor da embalagem ajudaria os consumidores a se certificar que os
produtos das prateleiras ainda estão aptos para o consumo. A ideia dos
pesquisadores é que, quando a película começar a ser comercializada,
seja disponibilizada nas gôndolas de supermercado uma paleta de cores
que correlacione a embalagem com o estado de conservação do alimento.
Alternativas sustentáveis
A criação de embalagens funcionais biodegradáveis faz parte de um
projeto empreendido pela equipe do Laboratório de Engenharia de
Alimentos da Escola Politécnica da USP. Segundo Tadini, o objetivo é,
além de criar uma alternativa sustentável para o filme plástico, agregar
algum tipo de funcionalidade à embalagem.
O grupo vem estudando também a formulação de outra embalagem – uma
‘embalagem ativa’ – que promete aumentar a validade do produto na
prateleira. Totalmente criado com elementos biodegradáveis (também à
base de fécula de mandioca), o filme libera compostos naturais que
ajudam na conservação de alimentos combatendo o desenvolvimento de
microrganismos.
Essa característica, obtida pela adição de óleos essenciais de cravo e
canela, torna a embalagem uma alternativa para a indústria que aplica
aditivos diretamente no alimento embalado como forma de prevenir a
contaminação. “Os óleos essenciais são colocados na formulação da
película e interferem no desenvolvimento de alguns fungos, evitando que
proliferem”, explica Tadini.

- Os filmes são produzidos
com fécula de mandioca e antocianina, pigmento retirado da casca da uva
responsável pela variação da cor da embalagem quando o produto está se
deteriorando. (foto: divulgação)
Os dois filmes recebem ainda partículas de argila para aumentar sua
resistência e capacidade de impermeabilização, evitando o contato com a
umidade do ambiente, que favorece o desenvolvimento de microrganismos.
Segundo Tadini, foram encaminhados pedidos de patente das duas
embalagens e já há empresas interessadas na fabricação dos produtos. No
entanto, ainda não foi desenvolvido um processo de produção em larga
escala. “É preciso que se crie um modo de produção que possa suprir a
necessidade da indústria e transformar o filme em um produto
competitivo”, completa.
Fonte: CienciaHoje Uol
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